O professor de inglês Paulo Guedes encaminhou à reportagem uma carta que foi enviada à diretoria do Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) sobre um incidente ocorrido na unidade de ensino de Balneário Camboriú, que é do Governo do Estado.
É o relato de uma situação que o levou a suspender aulas de inglês usando música, como técnica pedagógica. As aulas são sucesso entre os alunos e inclusive já foram notícia neste jornal por se tratar de uma iniciativa que incentiva os alunos.
Ele informou que a resposta da diretoria e da Gerência de Educação foi tratar o fato internamente e ele ainda aguarda resposta da Ouvidoria do Estado. “Não tomei nenhuma medida judicial e estou tentando resposta no âmbito trabalhista, mas se não tiver resposta, terei que acionar outros recursos”, informou.
Leia a carta na íntegra
Balneário Camboriú, 10 de Abril de 2013.
Sra. Diretora do CEJA Balneário Camboriú
Adoraria que o motivo desta missiva fosse para dar boas notícias a respeito dos resultados apresentados diante da proposta de trabalho que me foi apresentada desde o final de 2011 dentro desta instituição de ensino.
Como é do vosso, sou educador graduado em Letras (Português-Inglês) e procuro complementar as minhas atividades inserindo várias iniciativas que visem facilitar o aprendizado, seja de língua portuguesa ou estrangeira. Desde que fui contratado por esta instituição pela primeira vez, e isso data de Novembro de 2011, sempre trabalhei utilizando estes recursos e até o presente momento não havia recebido nenhuma queixa. Ao contrário, o nível de satisfação com o meu trabalho sempre esteve além das expectativas, e a senhora sabe disso.
Professora, por trabalhar com música dentro de um ambiente educacional, não dispondo de um laboratório de ensino de línguas, sempre externei a minha preocupação em não incomodar a quem quer que seja com o barulho que às vezes a atividade provoca. Sempre conversei com meus colegas a esse respeito e até a presente data não ouvi nenhuma queixa quanto a isso. O que acontece é que sempre recebi elogio dos colegas e desta diretoria por poder desenvolver uma atividade diferenciada e que em meados do ano passado resultou até em reportagem em noticiário local.
Não vou me estender aqui a falar da luta que foi conseguir trazer o CEJA para a sua “residência própria”, pois isso a senhora tem conhecimento de cadeira, mas falo do meu orgulho de ter feito parte deste processo e de estar cada vez mais contribuindo com o meu trabalho e dedicação para o bom andamento desta proposta educacional. Conheces o meu empenho em fazer com que a educação de jovens e adultos seja a alternativa principal na mudança de vida destas pessoas que nos procuram e que tem sede de crescer.
No início deste ano, na primeira semana de aulas, pra ser mais exato, fui abordado por uma pessoa que mais tarde vim a saber se tratar da professora Conceição, responsável pela área pedagógica do CEJA (no dia em que me chamou à sala da diretoria, ela não se apresentou) afim de me interpelar e advertir verbalmente a respeito da minha maneira de trabalhar em sala de aula, dizendo que as músicas estava incomodando aos demais professores e que eu parasse com o trabalho ou diminuísse o volume pois a música na sala de aula não era uma atividade pedagógica (!). Confesso que ouvir isso de um profissional que dentro das suas atribuições tem o apoio pedagógico me causou estranhamento e espanto. Perguntei a ela o seguinte: Professora, dentro do contexto educacional atual, onde estamos iniciando 2013 como o ano da instituição das aulas de música como disciplina escolar, o que é pedagógico para a senhora? Ela nada respondeu.
Expliquei para ela que eu desenvolvi este trabalho por dois anos no Município de Camboriú e que desde 2012 faço parte dos quadros de professores de Balneário Camboriú, onde trabalhei nas Escolas Municipais Presidente Médici, Vereador Santa, Nova Esperança e neste ano, Dona Lili, sempre utilizando este expediente, conseguindo incentivar pessoas a aprender uma segunda língua para que melhorem seu currículo diante de um mercado tão competitivo. Levei ao seu conhecimento o trabalho que já faço no CEJA deste então e disse ainda que estava cantando nas salas porque os alunos estavam sem aulas e todos os professores que estavam presentes se dispuseram a recebê-los haja vista que era a primeira vez que eles chegavam lá, e eu aproveitei para dar-lhes as boas vindas de forma diferenciada e acolhedora como sempre fiz. Disse ainda que não era todo dia que tinha música e que eu a usava como instrumento de promoção e desenvolvimento de educação e cidadania, além de sempre fazer avaliações fonéticas periódicas com esta ferramenta. Ela me falou que no passado tentou desenvolver atividade semelhante mas não conseguiu, teve dificuldade e por isso parou. Ficou acordado que cantaríamos mais baixo e a conversa terminou aí.
Confesso que fiquei tentado a falar com a senhora a respeito do ocorrido, mas achei por bem não começar o ano letivo de forma tão desgastante, pois como sabes, meu perfil sempre foi de me colocar “sempre ao lado da solução e nunca como parte de um problema” e quando digo que estou na missão para “contribuir”, não e da boca pra fora.
Ontem, dia 9 de Abril, estava na sala 304 desenvolvendo minha atividade semanal, duas aulas de Língua Portuguesa e duas de Língua Inglesa. Depois do intervalo, já com as atividades feitas e prestes a recomeçar a última aula, peguei o violão e comecei a fazer uma avaliação fonética com os alunos. Antes disso me certifiquei de que não havia nenhum professor dando aulas nas salas ao lado e comecei a atividade até com portas abertas, pois estava calor e o ventilador estava fazendo com que as folhas voassem.
Depois de certo tempo, quando já havíamos cantado duas músicas, a professora Conceição adentrou a sala e me repreendeu na frente dos alunos exigindo que eu parasse com a atividade, pois alguns professores estavam reclamando. Um dos alunos de nome Mateus Pires Magarini tentou retrucar dizendo que ela não queria uma escola alegre e sim uma escola triste e ela foi ríspida com o rapaz, dando a entender que quem mandava ali era ela, atitude esta que nos deixou a todos atônitos.
O aluno Marco Rafael Johann Ruaro disse que não estávamos incomodando ninguém, mas não foi ouvido. Parei imediatamente a atividade e continuei com o restante da aula. Cumpri o meu horário e saí para guardar meus objetos no carro. Voltei para a escola e a professora estava na secretaria. Eu agradeci a ela por me avisar que a atividade estava atrapalhando e somente pedi para que ela não me expusesse diante dos meus alunos como ela fez, pois fiquei constrangido com tal tratamento e que ela poderia fazer um pequeno, educado e discreto gesto da porta mesmo que eu iria entender. Falei também que a sala de aula é o ambiente onde o educador ali presente é a autoridade máxima e que a minha havia sido neutralizada por tal atitude. Ela me respondeu grosseiramente dando a entender que faria isso quantas vezes fossem necessárias e que se eu estava ali pensando que posso fazer o que quero, estava muito enganado. Disse que ela era a diretora e que ali a autoridade máxima teria que ser respeitada. Disse que eu venho afrontando-a desde então, trazendo o meu instrumento para dar minhas aulas e que e saísse da sua sala e da escola. Ela nem teve a sensibilidade e a educação de pedir para que eu me retirasse. Disse em alto e bom som SAIA JÁ DA ESCOLA!!! Disse SAIA! Como quem diz a um animal de estimação, o que muito me ofendeu. Gritou comigo e ficou mandando-me calar a boca várias vezes. Disse que eu não a estava respeitando, no que eu respondi prontamente que o respeito é uma via de mão dupla e que ela não foi capaz de me respeitar dentro do meu ambiente de trabalho, expondo-me daquela maneira perante os alunos. Quando ela me mandou calar a boca e sair da escola eu pedi para que ela não me tratasse como moleque e que eu ia notificar a direção acerca de tudo o que ela havia me dito, ela mais uma vez falou que a diretora ali naquele momento era ela. Aproveitei para dizer que ela como diretora constituída não teve a sensibilidade de me avisar de forma correta e educada acerca do incidente. Neste momento ela ficou sem argumentos, começou a me ofender e pegou o telefone para ligar para a polícia.
Fui até o carro e tenho a impressão que ela pensou que eu tinha ido embora. Voltei e fiquei esperando a polícia chegar. Pedi aos meus alunos que ficassem no que eles prontamente me atenderam e em mais ou menos dez minutos a polícia chegou. Ela os chamou para a sala da diretoria, ofereci-me para entrar também e ela bateu a porta na minha cara, o policial educadamente saiu da sala e disse que me ouviria em seguida. Aguardei.
Quando chegou minha vez, entrei na sala contei tudo o que aconteceu e ainda fui questionado por um dos policiais que queria saber se a aula era de Língua Inglesa ou de Música, dando a entender que as duas coisas não podem andar juntas. Respondi que era inglês com música. Ele me questionou a respeito da hierarquia dentro de um ambiente de trabalho e eu expliquei que em nenhum momento essa hierarquia havia sido quebrada. Ela me chamou de mentiroso por cinco vezes diante dos policiais, disse que eu estava ali para “rodar a minha baiana” e aparecer, foi mal educada, interrompeu a minha explicação a ponto do policial dizer pra ela que eles estavam ali pra resolver a questão e que se fosse pra continuar a discussão, eles iriam embora. Quando ela me chamou de mentiroso eu lhe disse que tinha testemunhas do que tinha acontecido e as minhas testemunhas são:
Anne Francielli Pires Mengotti, Jéssica Pamela Antunes, Marco Rafael Johann Ruaro, Mateus Pires Magarini, Otília da Silva Azevedo Pereira, Rute dos Santos Oliveira e Elizete Melo. São estes os alunos que presenciaram o fato.
Professora, a senhora sabe que tenho verdadeira paixão pela educação de jovens e adultos e encontrei nesta cidade, neste estado que tão bem me acolheu, um terreno fértil à propagação do ensino àqueles que por vários motivos deixaram as salas de aula em tempo adequado. Venho acompanhando o trabalho que tens para manter esta escola funcionando, com dificuldades, desafios, e lutas. Sabes que sempre estivemos juntos nesta missão e que independentemente dos percalços, o trem do CEJA continua nos trilhos e continuará por muito tempo.
Depois de ter convivido com pessoas tão brilhantes dentro da educação de adultos, ontem me vi diante de uma pessoa totalmente despreparada para a função que exerce. Uma pessoa que não sabe a diferença entre autoridade e autoritarismo. Um profissional que diante da primeira situação embaraçosa preferiu chamar a polícia, como se eu fosse um bandido, um malfeitor, quando na verdade estava ali garantindo o meu sagrado sustento, dentro do meu ambiente de trabalho, amparado por uma instituição de ensino pública que de acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho deveria prezar pela minha integridade física e moral. Uma pessoa sem perfil educacional que com esta atitude demonstrou não ter a menor experiência no trato com os profissionais a seu comando muito menos com os alunos. Alguém que não tem tato para lidar com pessoas e desconhece o que são relações humanas, sociais ou trabalhistas. Fiquei constrangido e ofendido diante de tal situação pois nunca imaginei que algo assim fosse me acontecer.
Professora sou um homem humilde, o que não é defeito, tenho muito orgulho da pessoa e do profissional que sou. Procuro trabalhar sempre buscando o bem estar de quem me rodeia, ando sempre dentro das normas preestabelecidas e acima de tudo, sou um homem honrado. Ontem me senti o pior dos seres ao ver os alunos presenciarem uma cena tão degradante. Foi exposição demais.
Trabalho três períodos porque não tenho a índole de viver reclamando de salário baixo, quando entro pela porta de todas as escolas onde trabalho sempre o faço carregando comigo o melhor que posso oferecer, alegria, profissionalismo e dedicação. Estou realmente entristecido pelo tipo de tratamento que recebi e deverei procurar instâncias maiores para onde enviarei comunicados de conteúdo semelhante, não sem antes deixá-la a par de tudo o que aconteceu para evitarmos atropelos. Pessoalmente nada tenho contra professora Conceição, porém, profissionalmente ela me ofendeu muito. Para que isso não venha a acontecer futuramente com outros profissionais, solicito desta direção as providências que lhe forem cabíveis. Agradeço tendo a certeza de que o sentimento que move as relações humanas se chama respeito, e quando ele não é praticado acontecem os grandes desequilíbrios sociais. Atenciosamente,
Paulo Guedes
Segunda, 29/4/2013 11:42.
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